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Mais que inteligência, vida artificial

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Você sai de casa pela manhã e vai ao médico. Um robô, isso mesmo, um robô, lhe oferece diversas possibilidades de tratamento, baseado nas informações sobre sua história clínica, relacionando-a ao que se sabe de mais moderno sobre cura e terapia. Depois, você passa no banco e outra máquina, a partir de dados acumulados sobre suas transações e perfil, oferece-lhe um empréstimo, checa os dados e se responsabiliza por todos os procedimentos. Você volta para casa e o carro, no caminho, avisa que você está cansado e é hora de parar de dirigir, para evitar um acidente. Se dias depois você voltar à clínica e descobrir que precisa de um transplante, o órgão que vai receber pode ser totalmente artificial, formado por chips. Parece um mundo de tela de cinema e ficção científica e, embora sejam casos de emprego da inteligência artificial (IA), eles já indicam o advento de um novo cenário para a tecnologia: o surgimento da vida artificial.

Você sai de casa pela manhã e vai ao médico. Um robô, isso mesmo, um robô, lhe oferece diversas possibilidades de tratamento, baseado nas informações sobre sua história clínica, relacionando-a ao que se sabe de mais moderno sobre cura e terapia. Depois, você passa no banco e outra máquina, a partir de dados acumulados sobre suas transações e perfil, oferece-lhe um empréstimo, checa os dados e se responsabiliza por todos os procedimentos. Você volta para casa e o carro, no caminho, avisa que você está cansado e é hora de parar de dirigir, para evitar um acidente. Se dias depois você voltar à clínica e descobrir que precisa de um transplante, o órgão que vai receber pode ser totalmente artificial, formado por chips. Parece um mundo de tela de cinema e ficção científica e, embora sejam casos de emprego da inteligência artificial (IA), eles já indicam o advento de um novo cenário para a tecnologia: o surgimento da vida artificial.

Um dos livros mais importantes que tratam do tema é “Artificial Life: A Report from the Frontier Where Computers Meet Biology” (“Um relatório sobre as fronteiras entre computadores e seres biológicos”, em tradução livre), do jornalista Steven Levy. A obra trata de pesquisas envolvendo a criação de vida artificial, a partir do cruzamento entre engenharia genética e IA. Mas o que pode e até onde vão essas pesquisas? Estaríamos caminhando para a criação de um tipo de vida artificial tal qual a da série Westworld, da HBO?

A indústria automobilística foi uma das primeiras a usar a IA em escola industrial depois que, em 1950, o matemático britânico Allan Turing, considerado por muitos como o pai da Ciência da Computação, criou o teste que leva seu nome, pelo qual uma máquina poderia ser considerada inteligente se pudesse emitir reações equivalentes às de um ser humano. A evolução tecnológica deu origem, por exemplo, à possibilidade de robôs serem usados para produzir e embalar peças, sem nenhum contato manual e, atualmente, instalados num carro, eles já comparam o estilo de direção do condutor nos primeiros minutos para avisá-lo se ele está cansado. Os bancos também os empregam para evitar fraudes e verificar transações suspeitas e, no caso da medicina, o Watson, lançado pela IBM, em 2011, é usado em hospitais, embora ainda não tenha todas as suas funções – inclusive de diagnóstico – aplicadas.

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“Vivemos um mundo em que muitas tecnologias e possibilidades previstas nos anos 70 e 80 do século passado não se concretizaram. Aquele foi um período de muitas ilações sobre o que seria o novo século, o novo milênio. No entanto, muitos outros projetos, sobre os quais ninguém falava ou podia imaginar, ganharam forma e existência. Esse é um desafio, pois, por mais que sejam feitos prognósticos, não é possível saber o que teremos. A tecnologia e a IA trazem muitas possibilidades e elas são eminentemente boas à sociedade, mas algo muito antigo não pode ser esquecido: a ciência precisa dialogar com a ética e a educação”, explica, em entrevista exclusiva à Século 25, o professor Pavlos Moraitis, da Universidade René Descartes, de Paris, na França, instituição que tem um programa de pós-graduação stricto sensu na área de IA. Moraitis tem se dedicado, desde o início dos anos 1990, a refletir e a orientar trabalhos sobre o avanço da tecnologia e sua relação com o poder e a ética. Atualmente, o professor dirige o laboratório de pesquisas em informática da universidade.

Como não há nada de lógica cartesiana no desenvolvimento da IA, essas preocupações envolvem, inclusive, os avanços que possibilitam a interação entre máquinas. À medida que a IA avança e os robôs conseguem fazer atividades para as quais, antes, era imprescindível a ação humana, as máquinas, exatamente como as pessoas, também se envolvem em celeumas éticas e até em crimes.

Em 2011, como noticiaram diversos veículos, como a agência Reuters, um drone dos Estados Unidos eliminou um grupo de homens no Paquistão por interpretar como “comportamento suspeito” uma pequena aglomeração que tinha o objetivo de resolver um conflito local, algo como uma reunião de condomínio um pouco mais exaltada. A Organização das Nações Unidas (ONU) afirmou em documento de 2014, assinado pelo relator do órgão para a promoção dos Direitos Humanos na luta contra o terrorismo, Ben Emmerson, que os dados sobre mortes por drones não são transparentes. O relatório Armed drones: calls for greater transparency and accountabilry (“Drones armados: apelo para maior transparência e responsabilidade”, em tradução livre) toca em questões que envolvem a legalidade das ações e o risco que elas oferecem, inclusive, ao Direito Internacional.

“A tecnologia e a IA trazem muitas possibilidades e elas são eminentemente boas à sociedade, mas algo muito antigo não pode ser esquecido: a ciência precisa dialogar com a ética e a educação”

Vida Artificial

Todas essas notícias e as possibilidades de avanço rumo à vida artificial aumentam as controvérsias e as preocupações. Elas ficam ainda mais claras quando até partes do corpo humano são recriadas. Na Universidade de Harvard, nos Estados Unidos, pesquisadores conseguiram produzir rins, fígado e medula óssea usando IA. O passo seguinte é a conexão de todas essas partes a um chip, que, ao integrar tudo, poderá formar um organismo completo. Por enquanto, a ideia é utilizar o sistema para testes de medicamentos, o que dispensaria cobaias. Em outra etapa, porém, está prevista a produção dos órgãos em tamanho natural para ser usado em transplantes.

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Como esses órgãos artificiais tentam reproduzir características e funções humanas, como a manutenção celular, espera-se que seja possível verificar de que maneira tratar uma parte do corpo afeta outra, no caso de alguma intervenção medicamentosa. O aspecto positivo é que isso pode auxiliar na elaboração de medicamentos mais eficazes e com menos efeitos colaterais. Com a produção de medula, por exemplo, já é possível vislumbrar a criação de sangue artificial, o que também está sendo pesquisado com os primeiros resultados satisfatórios, na Universidade de Massachussets, também nos Estados Unidos.

A questão é que, antes mesmo de a tecnologia ser testada e finalizada, o Departamento de Segurança dos Estados Unidos, no Pentágono, deixou público que financia pesquisas desse tipo para conectar membros artificialmente criados, fazendo surgir um androide, ou seja, um ser totalmente desenvolvido em laboratório, corroborando a tese sobre vida artificial. Os cientistas do Pentágono reconhecem que foram produzidos pulmões e fígado, cada um com pouco mais de oito centímetros quadrados. A justificativa alegada para as criações é a possibilidade de testar esses órgãos e a tecnologia envolvida para tratar feridos de guerra, incluindo aqueles atingidos por armas biológicas ou químicas. Isso não deixa de suscitar a lembrança do que, até pouco tempo atrás, era visível apenas no cinema, como na história de Robocop (1987, dir. de Paul Verhoeven). Quando um agente sofre um acidente, seus órgãos são substituídos por sistema tecnológico, fazendo surgir o primeiro policial androide da história.

“Há a alegação de que esses órgãos sirvam para testes de medicamentos, mas a questão é até onde esse avanço pode ir. Tanto a legislação quanto a constituição de uma ética sobre o assunto ainda são falhas, porque, em geral, separamos o que é ser humano e o que é ser artificial. Entretanto, acredito que hoje a discussão não pode ser tão focada nessa separação, mas sim até onde essa integração pode ir. O que está em jogo não é mais a inteligência artificial, mas a relação dela com a humana”, defende o professor Moraitis.

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A engenheira Isabela Ramos Vitorini voltou recentemente dos EUA onde fez mestrado na área de informática, na Edinboro University, na Pensilvânia, com estudos na área da interação informática-homem. Repare: a ordem não é “homem-informática”, como ela faz questão de destacar. “Mesmo sem perceber, temos hoje uma interação em muitas áreas que, de tão naturalizada, não é percebida. Veja como usamos os sistemas operacionais dos celulares e como os algoritmos determinam nossas escolhas. Não somos somente nós, humanos, que os consultamos, numa atitude em que a tecnologia é passiva. Eles nos dizem como devemos agir e o que consumir. Além disso, algumas tecnologias, como os marca-passos e as próteses, são usadas há muito tempo, com sucesso. Eu acredito no potencial disso tudo, olhando de forma muito positiva. Não tenho uma postura distópica. Creio que, da mesma forma como aprendemos a, paulatinamente, usar as tecnologias disponíveis hoje, aprenderemos a usar as do futuro. Os benefícios são maiores que os problemas. Só precisamos de uma educação que considere essas questões”, explica.

A pesquisadora lembra também que próteses que usam IA possibilitam a leitura de impulsos nervosos e fazem com que seres humanos tenham atividades que podem ir do simples caminhar ao alto rendimento, como é o caso de atletas que, por enquanto, são enquadrados como paraolímpicos. A evolução pode acabar com essas diferenças, mas será necessário discutir os limites, pois o corpo humano tem restrições que as máquinas não precisarão ter.

Tanto a legislação quanto a constituição de uma ética sobre o assunto ainda são falhas, porque, em geral, separamos o que é ser humano e o que é ser artificial. Entretanto, acredito que hoje a discussão não pode ser tão focada nessa separação, mas sim até onde essa integração pode ir. O que está em jogo não é mais a inteligência artificial, mas a relação dela com a humana

Educação

Se a vida artificial, dotada também de IA, está surgindo em institutos de pesquisa, ela também pode substituir alguns desses cientistas numa das tarefas que, em geral, os acompanham durante o ofício: o ensino. A Universidade Jiujiang, na China, por exemplo, já realizou aulas ministradas por uma professora-robô, chamada de Xiaomei, criada por cientistas do Departamento de Engenharia Informática e Robótica Inteligente da mesma instituição. O protótipo levou um mês para ficar pronto. Durante as aulas-teste, a “professora” usou apresentações de PowerPoint e conseguiu fazer pequenas interações com os alunos, respondendo a questões, inclusive. Ainda com limitações como a necessidade da padronização dos comandos utilizados pelos estudantes para se comunicar com ela, Xiaomei continua sendo programada.

iStockPensando nessas problemáticas, a Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP) criou um curso de extensão voltado à discussão das implicações da relação entre seres humanos e IA. O curso “Inteligência Artificial: Conceituação da Tecnologia e Impactos Sociais” é coordenado pela professora Lucia Santaella, reconhecida internacionalmente como umas das principais referências na área de Semiótica. O curso pretende discutir as relações entre inteligência humana e artificial e de que forma há um impacto nas funções cognitivas. A proposta é refletir ainda de que maneira são necessários novos talentos e discussões nesse cenário. Integrante, entre outros grupos, do Transobjeto, Santaella tem se dedicado a refletir sobre a contemporaneidade tecnológica, a função dos objetos técnicos, a internet das coisas e a relação desses elementos com a linguagem. No artigo “A IA veio para ficar, crescer e se multiplicar”, publicado no início deste ano no site do grupo , a pesquisadora, após traçar um histórico sobre o desenvolvimento de máquinas inteligentes, explica que “a julgar por seus avanços recentes, restam poucas dúvidas acerca do fato de que, mais cedo ou mais tarde, a IA deverá abranger muitas das competências que até agora julgamos serem privilégios exclusivos dos humanos”. E é nesse ponto que, segundo a autora, surgem dois sinais de alerta.

O primeiro deles relaciona-se ao argumento de que o crescimento tecnológico pode ser explicado de modo determinista, ou seja, tratado a partir do pressuposto de que a tecnologia impulsiona o desenvolvimento da estrutura social e os valores culturais. Embora o termo e a discussão sejam do começo do século XX, sobretudo a partir do trabalho do economista Thorstein Veblen, que morreu em 1929, essa concepção continua ganhando adeptos. Por esse ponto de vista, acredita-se também que o desenvolvimento da tecnologia, que seria uma força independente e em constante expansão, tem um caminho previsível e possível de ser rastreado.

“A ciborgização generalizada atual nada mais é do que a continuação inelutável da saída do humano da natureza na construção de outras naturezas artificiais.”

Em nenhuma fase de sua evolução, o humano esteve dependente apenas do orgânico ou do instintivo. Não há uma dicotomia entre natureza e cultura, pois a sociedade humana se formou no processo gradativo de artificialização do mundo”, escreve Santaella. Ainda de acordo com a pesquisadora, “a ciborgização generalizada atual nada mais é do que a continuação inelutável da saída do humano da natureza na construção de outras naturezas artificiais. De resto, a natureza sempre demonstrou uma maleabilidade para o artificial, de modo que as fronteiras entre natureza e cultura, entre organismo e máquina, têm de ser continuamente redesenhadas em concordância com fatores históricos complexos.

O segundo sinal de alerta levantado pela pesquisadora é que o inegável crescimento da inteligência pode ser historicamente comprovado. “Entretanto, seria arriscado passar a tal postulação um julgamento de valor que tende para a euforia. Embora a IA, de fato, possa facilitar e incrementar tarefas humanas e aperfeiçoar os serviços prestados pelas corporações e os governos, apresenta-se aí um campo que merece e exige ser tratado com a arte do cuidado e com precauções éticas”, argumenta a semioticista. “A inteligência artificial, tanto quanto quaisquer outras tecnologias, não está apartada da inteligência humana. Esta, longe de ser alimentada pela razão pura, é sobredeterminada pelo inconsciente.” A grande questão exposta por Santaella é o fato de que não se pode deixar de falar de IA e, consequentemente, da vida artificial, sem deixá-la de compreender como fruto da própria experiência e dos anseios humanos, colocando-a nos limites e nas preocupações do dia a dia, com atenção aos usos como arma política ou biológica. Ao indicar a possibilidade de vida artificial, a ciência torna ainda mais necessário o debate e a abordagem da temática na formação educacional em todos os níveis.

Por Fabiano Ormaneze

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