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Sem planejamento financeiro, startups ficam sem fôlego

Conheça os erros e acertos na hora de pensar o planejamento financeiro.
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Uma estratégia bem elaborada, com clareza de recursos e de objetivos, pode funcionar como a espinha dorsal de uma empresa que está nascendo, ou em desenvolvimento. Nesse contexto, a (boa) saúde financeira é um objetivo a perseguir e o planejamento nessa área, indispensável. Por mais que soem um pouco óbvias as afirmações, ainda há muitos empreendedores que colocam seus negócios em risco por falta de percepção desse assunto.

Uma estratégia bem elaborada, com clareza de recursos e de objetivos, pode funcionar como a espinha dorsal de uma empresa que está nascendo, ou em desenvolvimento. Nesse contexto, a (boa) saúde financeira é um objetivo a perseguir e o planejamento nessa área, indispensável. Por mais que soem um pouco óbvias as afirmações, ainda há muitos empreendedores que colocam seus negócios em risco por falta de percepção desse assunto.

Dentre vários fatores, um deles parece estar no topo das razões para isso acontecer. Segundo o educador financeiro Elvil Fernandes, trata-se do comportamento de quem está à frente da empresa. E ele já sinaliza: diagnosticar os comportamentos ajuda a mudá-los. Isso faz parte de seu trabalho, ajudar seus clientes a compreender que as respostas estão bem ali com ele e, com isso “ajudá-los a atravessar a ponte e mudar o paradigma”, conta.

Fernandes traz um exemplo bem concreto de um cliente pessoa física, um médico, que o procurou queixando-se de que “se sentia irresponsável uma vez que ganhava bem, mas não tinha reserva nem patrimônio”. Ele explica passo a passo como destrinchou o problema. “Tanto faz se é um indivíduo ou uma empresa, uma startup”, conta.

Em primeiro lugar, tomou conhecimento de todos os gastos e então passou a mapear o comportamento do profissional em relação ao financeiro. Após o diagnóstico, foram listados todos os desejos, sonhos e objetivos, posteriormente categorizados em metas de curto prazo (12 meses), médio (5 anos) e longo (mais de 5 anos). A próxima etapa foi fazer o orçamento de toda essa lista. “Quando fazemos isso, passamos a racionalizar, deixa de ser sonho e passa a ser objetivo, meta”, explica Fernandes, que tem mais de 20 anos de experiência em planejamento estratégico. “Num primeiro momento, a impressão era de que seria necessário aumentar a carga de trabalho, mas adequamos o estilo de vida para que ele pudesse conquistar o sonho de alcançar a independência financeira aos 60 anos.”

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Para ajustar a situação monetária do educando em finanças, Fernandes fez todo o orçamento do médico: quanto recebia, o preço da atividade profissional e de cada item de seus gastos. “Eu não fabrico sovina”, afirma Fernandes fazendo troça. “Eu ajudo a pessoa [ou a empresa] a compreender a vida financeira.” Para ele, entender como se gasta o dinheiro é a chave para chegar à mudança efetiva de comportamento. Isso, segundo o educador, é mais eficiente que um punhado de planilhas.

No caso de empresas, ele diz, é o mesmo, só que “a empresa é um organismo vivo, formado por pessoas”. E o sonho, o desejo, precisava ser racionalizado. Segundo ele, uma situação muito comum é o desvio de foco, que pode ser tanto porque os donos da empresa estão dando mais atenção à operação que à estratégia quanto porque eles, de fato, estão tocando mais de um empreendimento. Em uma das startups, ele diz que o gestor o procurou com problemas financeiros e o problema logo se apresentou: esse cliente não estava dando atenção ao seu negócio e esse sentimento havia contaminado os funcionários. A solução, no caso, foi redimensionar os esforços, fechar uma das unidades e, assim, poder crescer de maneira mais sustentável.

“Se o ansioso conseguir usar o medo a seu favor, ele pode ter um planejamento quase sem falhas. Pessoas com receio do futuro tendem a ter algo chamado de comportamento “evitativo”, que busca evitar o enfrentamento, o risco.

Ansiedade e educação
Em sua experiência de mais de 20 anos com planejamento estratégico, Fernandes percebeu um traço comum nos seus clientes: a ansiedade. “Querem tudo para já, querem tudo imediatamente!”, afirma. Esse problema, que afeta a sociedade em diferentes gradações, se agrava por meio da opressão das telas presentes em todos os momentos da nossa vida e pode virar uma doença a ser tratada no consultório médico. Ou seja, mais que marca dos nossos tempos, ela já virou doença.

Para se ter uma ideia, no Brasil, transtornos de ansiedade atingem cerca de 9 a cada 100 habitantes, segundo o último levantamento divulgado pela OMS (Organização Mundial da Saúde). Quando se trata dos ganhos materiais e de dinheiro, esse mal complica ainda mais o controle das planilhas orçamentárias.

A psicóloga Liliana Prado Lima, de São Paulo, chama a atenção para alguns riscos desse estado emocional. Se o empreendedor se sentir consumido pela preocupação, ele pode se “distrair”. A situação piora se ele realmente sofrer de ansiedade: “uma das características de quem tem esse transtorno é a sensação de que tudo vai dar errado”, explica Lima. Então, tarefas simples, como registrar os planos, podem se tornar esforços hercúleos. Isso acontece porque o medo se torna uma constante e o paciente tende a se retrair, busca não se arriscar, expor-se, tomar uma decisão. Na prática, não se viabiliza sequer a elaboração dos planos. “Podemos observar a perda de atenção e o que acontece é que a pessoa entende ter perdido o interesse”, complementa.

Elvil Fernandes, educador financeiro /Foto: Juca Rodrigues
Elvil Fernandes, educador financeiro /Foto: Juca Rodrigues

Por outro lado, se o ansioso conseguir usar o medo a seu favor, ele pode ter um planejamento quase sem falhas. Pessoas com receio do futuro tendem a ter algo chamado de comportamento “evitativo”, que busca evitar o enfrentamento, o risco. Ao mesmo tempo, o medo de perder dinheiro pode ser usado para esgotar as possibilidades de isso acontecer: “Uma das melhores estratégias para um planejamento é conseguir visualizar todo o processo e, ao prever tudo o que pode dar errado, o ansioso pode estar no caminho de um planejamento impecável”, diz Lima.

Liao Yu Chie tem fala tranquila e pausada – bem longe de qualquer traço de ansiedade e alerta que é impossível ao empreendedor prever o cenário de mercado, o que só faz do planejamento mais uma ferramenta de orientação de suas ações. O problema, na opinião dele, é que o planejamento financeiro costuma ser negligenciado pela falta de gosto por números e planilhas – e é um elemento que sinaliza ao investidor a consistência do negócio. Ele pode dar a própria empresa como exemplo: ao mostrar seu detalhado plano de negócios, com custos, dimensionamento de mercado e necessidades e possibilidades de clientes, conseguiu os investidores para começar sua consultoria de educação financeira.

“Tem que entender minimamente de planilha”, dispara Chie. Segundo ele, o empreendedor tem que “saber qual é cada premissa do negócio e como elas se relacionam entre si”, mesmo compreendendo que o cenário muda rapidamente e as previsões tendem a não se cumprir. A saída é rever os cálculos de tempos em tempos. “Na prática, esse vira o processo de orçamento da empresa”, afirma o professor, que recomenda revisões a cada seis meses.

Um dos obstáculos no caminho do empreendedor, para Chie, é o baixo nível do ensino brasileiro: “estamos entre os piores do mundo em educação financeira”. Ele se refere a um estudo sobre o tema divulgado em 2017 pela OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico) com levantamento entre 15 países. O Brasil ficou na lanterninha com a média mais baixa, uma vez que 53% dos alunos com 15 anos não chegaram ao nível básico de conhecimento. Para se ter uma ideia, a média dos países que compõem a OCDE é de 22%, um número que também é insatisfatório. Educação financeira não é uma disciplina escolar, mas os estudantes são apresentados a diversos conceitos de matemática financeira e deveriam ter capacidade de resolução de problemas e compreensão dos cenários.

Talvez essa característica também ajude a explicar por que o empreendedorismo no Brasil ainda é muito mais uma questão de necessidade que de escolha.

Por Karina Yamamoto

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