Jeffrey Wright interpreta Bernard Lowe

Westworld: A ficção que brinca com a nossa realidade

Psicanalistas e psicólogos analisam a relação da série com os nossos sentimentos.
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Imagine viver num lugar onde não existem regras, convenções ou punições de qualquer natureza. No universo de Westworld, série produzida e exibida pela HBO desde 2016, um grupo de pessoas convive com androides super avançados que simulam as emoções humanas, o que gera a dúvida sobre “quem é o quê” dentro daquele mundo. Baseada no filme homônimo lançado em 1973 pelo roteirista Michael Crichton, criador de sucessos como a franquia Jurassic Park (1990) e o drama médico ER (1994), o enredo complexo e cheio de reviravoltas, além do elenco de nomes conhecidos, cativou o público que tornou a série um sucesso de audiência e crítica. Mas o que é possível inferir sobre tamanho sucesso e os indícios de futuro nele contidos?

Imagine viver num lugar onde não existem regras, convenções ou punições de qualquer natureza. No universo de Westworld, série produzida e exibida pela HBO desde 2016, um grupo de pessoas convive com androides super avançados que simulam as emoções humanas, o que gera a dúvida sobre “quem é o quê” dentro daquele mundo. Baseada no filme homônimo lançado em 1973 pelo roteirista Michael Crichton, criador de sucessos como a franquia Jurassic Park (1990) e o drama médico ER (1994), o enredo complexo e cheio de reviravoltas, além do elenco de nomes conhecidos, cativou o público que tornou a série um sucesso de audiência e crítica. Mas o que é possível inferir sobre tamanho sucesso e os indícios de futuro nele contidos?

João Massarolo, cineasta e professor de Cinema na Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), acompanha o mundo das produções audiovisuais há quase 30 anos. Com formação em Psicologia, o diretor e roteirista de diversos filmes, como o curta O Quintal dos Guerrilheiros (2005), acredita que a identificação do público com os personagens é um dos principais trunfos da série e um dos pontos capazes de produzir mais reflexões sobre a sociedade e suas projeções. Exemplo disso é a existência de episódios em que os robôs se questionam de onde vêm, pergunta que ronda a humanidade desde sempre. “

Westworld aborda temas contemporâneos, que falam diretamente para a sua audiência, tocando em pontos relevantes da vida privada e do mundo do trabalho. Os episódios retratam um mundo construído por algoritmos e essa realidade é mediada por bancos de dados que geram emoções, destinadas a entreter frequentadores de um parque de diversões, que reproduz, em detalhes, o mundo do Velho Oeste norte-americano”, explica Massarolo.

O parque é habitado por robôs inteligentes, criados a partir da base de dados do comportamento humano, com a única e exclusiva finalidade de oferecer experiências personalizadas aos hóspedes.

Jeffrey Wright interpreta Bernard Lowe
Jeffrey Wright interpreta Bernard Lowe

Ainda de acordo com Massarolo, o design ficcional da série desencadeia um conflito sobre o que é real e o que é ficcional. “Esses conflitos contaminam a experiência oferecida aos visitantes, transformando o parque num campo de batalha entre humanos e máquinas”, conta.

O questionamento sobre limites e o prazer produzido pelo sofrimento alheio são alguns dos temas que podem ser discutidos a partir da série. O psicanalista e docente da Universidade Estadual Paulista (Unesp), André Luiz Gellis, explica que o fato de a história se desenrolar num mundo sem regras faz com que características como a perversão apareçam. “A série trata de uma espécie de jornada extraordinária em sua ‘permissividade’, na qual a ‘perversão’ se espalha a céu aberto, organizando um laço social, até mesmo uma forma de governo. A narrativa, inclusive, tenta mostrar um modo de confrontar a loucura: o campo de ação e amor, mais uma vez, é definido para a atenção dos espectadores, sendo desdobrado em toda a sua especificidade.”

Gellis destaca ainda que a falta de regulações gera um embate constante entre os envolvidos. “Ao que tudo indica, a série mostra que, em um horizonte de constantes embates, não encontra mais apoio a confiabilidade baseada no poder da palavra dada, capaz de autenticar o que a loucura e o desregramento demonstram, por falta de uma alteridade suficientemente confiável para receber o testemunho. Ou seja, inexiste qualquer instância terceira reguladora”.

Audiência

Somente nos Estados Unidos, a primeira temporada da série com dez episódios teve em média 13 milhões de espectadores. A segunda, que acabou no final de junho deste ano e contou com o mesmo número de episódios, foi acompanhada por 10 milhões de pessoas. No Emmy International 2018, prêmio mais importante da televisão mundial, disputado no dia 18 de setembro, a série tem o terceiro número de indicações, concorrendo em 21 categorias, entre elas a de melhor série dramática. Os bons números já garantiram uma nova temporada prevista para ser exibida em meados de 2020.

Anthony Hopkins
Anthony Hopkins

O jornalista Heitor Freddo, de 28 anos, começou a acompanhar a série a partir de outro sucesso da HBO, Game of Thrones (GoT), que ficaria em um hiato por um tempo. Ele destaca que, logo no início, o enredo da história chamou a atenção graças à narrativa não linear. “É impactante logo no começo. É passado, presente e futuro todos juntos, o que acaba prendendo a atenção. Depois, o desenrolar dos acontecimentos segue cativando o espectador”, destaca. Já a publicitária Júlia Hirano, de 28 anos, seguiu a indicação de amigos e resolveu apostar em Westworld. “Muita gente já tinha me falado que a série era boa. O elenco também me chamou atenção, incluindo o Anthony Hopkins e o brasileiro Rodrigo Santoro”, conta ela, que também é fã de GoT. 

Os fãs afirmam que as questões filosóficas e sociais levantadas são um dos pontos fortes do enredo, que pode até parecer complicado, graças às constantes reviravoltas. “A primeira temporada nos prende à ideia para onde a história vai. A segunda bagunça todas as certezas que construímos. É um verdadeiro nó na cabeça”, comenta Freddo. Júlia completa que a montagem “desse quebra-cabeça” acaba sempre surpreendendo o espectador. “O enredo vai nos dando dicas de como a série vai caminhar.

Você junta as peças sobre quem é humano, quem é robô, para, ao final, na maioria das vezes, estar completamente errado sobre as ligações que fez. Tudo isso faz com que a gente pense nos acontecimentos e nas ações dos personagens, mesmo depois que a série termina”, complementa a publicitária.

Tal avanço sob o mundo real é explicado por Massarolo a partir do embate que a série propõe entre humanos e robôs. “A produção discute o limite entre o mundo imaginado e o nosso cotidiano da forma mais brutal, através dos confrontos entre personagens ‘reais’ e outros dotados de inteligência artificial. A regra básica de qualquer jogo de faz de conta é que a brincadeira, a ficção, não deve interferir de forma literal na nossa vida. É algo à parte, que usamos para extravasar nossos desejos e ansiedades do dia a dia. A série coloca em questão essa fronteira, com os robôs do próprio parque tomando consciência do mundo ao redor, o que, para eles, não é mais um mundo de jogo, mas um mundo real, se rebelando contra os anfitriões humanos”.

O resultado disso é uma autocrítica sobre como o ser humano denomina de “ficcional” ou de “artificial”, elementos que fazem parte do “real”. Ainda de acordo com Massarolo, a questão em discussão é a porosidade da fronteira entre o mundo imaginado e a realidade cotidiana, “o que não é tão claro quanto parece”. Temas contemporâneos como privacidade, igualdade de gênero, política e entretenimento, redes sociais, guerra e humanidade, são postos em pauta na série, por meio da construção de mundos ficcionais que podem soar como distantes, mas que, na verdade, abordam questões que fazem parte do dia a dia. “Essas histórias e seus personagens nos transportam para mundos imaginados. Não fisicamente, mas emocionalmente, proporcionando a catarse de uma grande variedade de sentimentos e a vivência de experiências que talvez nunca teríamos em nossas vidas comuns”, analisa Massarolo.

Temas

Essas séries colocam o ser humano diante do seu lado mais perverso e esse é um dos desafios para o futuro, diante do avanço científico e tecnológico.

Personagem de Rodrigo Santoro
Personagem de Rodrigo Santoro
Cena da série com Anthony Hopkins e Jeffrey Wright. Imagens cedidas pela HBO.
Cena da série com Anthony Hopkins e Jeffrey Wright.
Imagens cedidas pela HBO.

Esse tipo de confluência entre mundos que acontece em Westworld é marcante também em outras produções, como Black Mirror, série de ficção científica criada em 2011 e sucesso mundial, produzida pela Netflix. A realidade, no entanto, dá indícios de que os temas lá tratados devem ser alvo de discussão social.

Na China, por exemplo, um aplicativo para celular chamado Zhima Credit, atribui ao público uma espécie de “crédito social” que varia de acordo com as atitudes da pessoa. Interligado a outro app, o Zhima compõe um banco de dados e tem acesso, por exemplo, a informações como os pagamentos bancários e os trabalhos voluntários da pessoa. Tudo isso gera uma pontuação que, inclusive, já impediu pessoas de tomarem empréstimos bancários, devido à má reputação.

“Essas séries apresentam uma perspectiva original de um futuro próximo, através de protótipos de mundos possíveis. O mais interessante é que esses mundos já fazem parte de um algum modo das nossas reflexões e o que queremos vivenciar nele em nossas experiências diárias”, analisa o cineasta da UFSCar.

“A gente pensa e se engaja, pois acaba refletindo sobre até onde o homem pode ir. Não sabemos quem é robô, quem é pessoa, mas isso levanta a questão se um comportamento que não é aceitável socialmente em relação a alguém poderia ser cometido contra essa máquina que também tem característica humanas. É uma questão ética”, completa Freddo.

Essas séries colocam o ser humano diante do seu lado mais perverso e esse é um dos desafios para o futuro, diante do avanço científico e tecnológico. É o que diz um dos personagens de Westworld: “consciência não é uma jornada para cima, mas para dentro. É como um labirinto. Cada escolha põe você mais perto do centro ou para as bordas”.

Por Duílio Fabbri Júnior

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