A vida humana na Terra 4.0

A revolução na vida humana com o impacto das tecnologias.
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Durante sua conferência para desenvolvedores, realizada em maio, na cidade de Mountain View, Califórnia (EUA), o Google apresentou um pacote de anúncios impressionantes, como se não se via há tempos no Vale do Silício. Entre as tecnologias anunciadas, teve destaque a assistente da empresa, que ganhou seis novas vozes em inglês.

Durante sua conferência para desenvolvedores, realizada em maio, na cidade de Mountain View, Califórnia (EUA), o Google apresentou um pacote de anúncios impressionantes, como se não se via há tempos no Vale do Silício. Entre as tecnologias anunciadas, teve destaque a assistente da empresa, que ganhou seis novas vozes em inglês.

Para ilustrar os avanços da inteligência artificial, o CEO Sundar Pichai exibiu duas conversas feitas por telefone entre a assistente e atendentes de um salão de beleza e de um restaurante. Sem nenhum indício tanto na entonação da voz, quanto na formulação das frases, a assistente conseguiu se passar por humana sem dificuldades e fez reservas nos dois estabelecimentos. O Teste de Turing foi quebrado com maestria, pois já é possível enganar um ser humano em uma conversa com um robô.

A tecnologia do Google ainda não tem data de lançamento, mas ajuda a mostrar os caminhos trilhados pela humanidade. As conversas chatas por telefone do cotidiano, por exemplo, caminham para a extinção, assim como o próprio serviço de telemarketing. O avanço da tecnologia dos últimos anos levou o ser humano a um novo mundo em que decisões e contextos jamais antes imaginados passaram a existir. Somada à inteligência artificial, como visto no exemplo do Google, existem hoje estudos avançados em nanotecnologia, computação quântica e engenharia genética que irão revolucionar a maneira como o ser humano se comporta e em como ele entende o mundo e a sua condição humana.

Um exemplo é a CRISPR, técnica capaz de modificar genomas com uma precisão nunca antes atingida, que já permitiu a criação de macacos com mutações programadas e também evitou a infecção do HIV em células humanas. No mesmo mês do anúncio feito pelo Google na Califórnia, cientistas chineses anunciaram o uso da técnica de edição genética em embriões humanos, o que marca o início das tentativas de utilizar a CRISPR para curar doenças genética – ou, quem sabe, para fazer o “design de bebês”, tão comum nas ficções científicas.

Jorge Forbes / Foto: Juca Rodrigues
Jorge Forbes / Foto: Juca Rodrigues

Como afirma o médico psiquiatra e psicanalista, Jorge Forbes, em entrevista à Século 25: “o impacto das tecnologias criou um tsunami, uma revolução na vida humana nunca antes vista nos últimos dois mil e quinhentos anos. Nós simplesmente não fazemos mais nada do jeito que fazíamos antes”.

Novo mundo, novas regras

Jorge Forbes é um dos maiores especialistas brasileiros sobre os impactos da tecnologia no comportamento humano. Desde 2017, ele apresenta um programa na TV Cultura chamado TerraDois, em que discute as novas formas de viver nesse mundo cada vez mais tecnológico e globalizado. “O programa foi criado para falar sobre como podemos habitar esse novo planeta que criamos, porque as pessoas estão apavoradas”, diz.

TerraDois foi eleito o melhor programa da televisão brasileira de 2017 pela Associação Paulista de Críticos de Arte (APCA). Em seus episódios, Forbes analisa a influência de tecnologias como inteligência artificial, manipulação genética e nanotecnologia no ser humano. Suas análises são reconhecidas internacionalmente, tanto que, em junho deste ano, Forbes foi convidado pela UNESCO para palestrar aos diretores da organização sobre qual será o impacto da inteligência artificial na vida das pessoas no século XXI.

Segundo Forbes, o principal impacto das novas tecnologias sobre a vida humana foi o de transformar a vida social, antes “verticalmente orientada”, em um “laço horizontal”. “Saímos de uma sociedade vertical e estamos em um mundo plano, paralelo, flexível, líquido. Um mundo em rede”, afirma. E as diferenças entre esses dois mundos são grandes. No mundo vertical, o ser humano tinha poucas opções de vida. Havia apenas o modo padrão de viver e a contraposição a esse padrão. “A sociedade anterior era mais confortante. O padrão funcionava como um piloto automático. Se as pessoas fizessem o que o padrão determinava, tudo estava tranquilo. E quando não se seguia o padrão, só era possível ser contra ele. Assim, a pessoa ou era adequada ou era rebelde, não havia alternativa. Já hoje, no mundo horizontal, as pessoas têm que escolher se serão corajosas ou covardes, pois agora temos múltiplas escolhas de como viver a vida”, diz Forbes.

De acordo com o psicanalista, o mundo de hoje é mais criativo, mas dá mais trabalho viver. E, embora essa nova realidade possa parecer libertadora no começo, no fundo, ela cria uma pressão muito grande, pois a responsabilidade da escolha é assustadora.

“Se eu tenho dez opções para algo e posso escolher apenas uma para minha vida, eu só terei a certeza de que perdi nove oportunidades. Nós saímos do mundo disciplinar para o mundo da aposta”, diz Forbes. Dessa forma, surge a necessidade das pessoas aprenderem a viver em um mundo sem a garantia de que, se elas seguirem um determinado plano, tudo dará certo.

No mundo vertical, o ser humano tinha poucas opções de vida. Havia apenas o modo padrão de viver e a contraposição a esse padrão. “A sociedade anterior era mais confortante. O padrão funcionava como um piloto automático. Se as pessoas fizessem o que o padrão determinava, tudo estava tranquilo. E quando não se seguia o padrão, só era possível ser contra ele. Assim, a pessoa ou era adequada ou era rebelde, não havia alternativa. Já hoje, no mundo horizontal, as pessoas têm que escolher se serão corajosas ou covardes, pois agora temos múltiplas escolhas de como viver a vida”, diz Forbes.

Tecnologia como fim

Nessa nova realidade de múltiplas escolhas e tecnologias de ponta, o homem passa a enfrentar questões éticas e comportamentais nunca antes observadas. O próprio uso da técnica CRISPR dos chineses em embriões humanos foi criticado pela academia e pelas revistas Nature e Science, que rejeitaram publicar a pesquisa chinesa por “objeções de natureza ética”. Dessa forma, é possível observar que não apenas as tecnologias estão em pleno desenvolvimento, mas também os valores humanos. Como explica o cientista social Roger Campato, coordenador do curso de Filosofia da Universidade Presbiteriana Mackenzie, “é óbvio que os avanços tecnológicos e seus produtos são mais perceptíveis, afinal, são bens tangíveis, que podemos tocar, mas no âmbito dos valores humanos também houve um desenvolvimento que merece ser ressaltado”, diz.

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Segundo o especialista, esse avanço nos valores humanos se materializa por meio das instituições, das leis e dos costumes. “É só avaliarmos os códigos que temos hoje e o contexto que existia há 100 anos. Ainda não vivemos em uma situação ideal, mas, comparativamente, estamos em uma situação mais digna, pelo menos do ponto de vista jurídico”, afirma.

Existem diferentes abordagens filosóficas sobre o impacto da tecnologia nas relações humanas, explica Campato, mas todas ressaltam o perigo que surge quando a tecnologia deixa de ser considerada um meio para atingir um objetivo e se torna o próprio objetivo. “Nesse contexto, precisamos nos perguntar: será que tudo é válido? Será que podemos fazer tudo que está, do ponto de vista tecnológico, ao nosso alcance? Será que o bem- -estar material é o mais importante dos valores? São questões morais que temos que responder nesse momento, porque essas tecnologias estão surgindo agora.”

Os questionamentos éticos apresentados por Campato podem parecer distantes, quando consideramos apenas a edição genética, por exemplo, mas eles se mostram atuais no caso das tecnologias da informação. A conexão em alta velocidade entre pessoas do mundo todo, concentrada nas redes sociais, trouxe consigo mudanças de comportamento e de valores que devem ser analisadas sob esse prisma.

“A internet rompeu nossas noções de tempo e espaço. Hoje, tudo está online e disponível 24 horas. O mundo em que vivemos é um gerúndio interminável, e as ideias de começo, meio e fim se perdem e são reconfiguradas de modo imprevisível. Isso tudo tem um impacto direto nas nossas vidas”, diz Lucília Maria Abrahão, doutora em psicologia, especialista em psicanálise e professora da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto (FFCLRP), da USP.

Segundo Lucília, um dos piores efeitos que as redes sociais causaram nas relações humanas foi o esfacelamento da divisão entre a vida pública e a privada. “As redes nos convidam a abrir nossa intimidade. Nós somos convocados a nos mostrar, a nos exibir. Nos questionam sobre o que estamos pensando, sobre o que gostamos e, com isso, abrimos nossa vida na esfera pública. É um operador vigoroso e, com o anteparo da tela, nós criamos na mente uma falsa ilusão de proteção, como se ali, na rede, não fôssemos inteiramente responsáveis pelo que fazemos. Isso abre espaço para discursos de ódio e para a circulação do horror. Tudo porque o corpo não está em cena”, diz.

Embora estudos sobre a relação entre tecnologia e homem existam há décadas na academia, suas formas têm se transformado por conta da velocidade das inovações. De acordo com a antropóloga Carolina Parreiras, professora da disciplina de Antropologia, Tecnologia e Internet na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, da USP, um dos métodos mais utilizados atualmente para estudar o impacto das inovações digitais na vida humana é a etnografia. “De acordo com esse método de pesquisa, que tem ganhado destaque na academia nos últimos vinte anos, para entendermos o homem, temos que compreender a sua relação com os dispositivos. Temos que analisar como acontece essa interação entre dispositivo e humano para avaliar quais os significados que a tecnologia ganha nesse contexto. Afinal, toda tecnologia tem algo de muito humano, pelo simples fato de que elas foram criadas por nós e são usadas por nós. Então, elas refletem os nossos valores”, explica.

Parreiras alerta para os riscos de interpretações nessa área que sejam muito simples. “Houve o tempo em que se acreditava no determinismo tecnológico, por exemplo. Pensava-se que uma pessoa viciada em videogames poderia desenvolver um comportamento violento. Isso já foi desmentido e sabemos que a tecnologia, por si só, não é tão determinante”, diz.

Ainda há muito a ser estudado sobre as consequências das inovações tecnológicas na vida humana, nos valores da sociedade e no comportamento das pessoas. A velocidade dessas mudanças é muito grande e, assim como surgirão novas técnicas e dispositivos com potencial de transformar o mundo, também serão feitos novos estudos nas áreas de psicanálise, filosofia, linguagens e antropologia para que possamos acompanhar o desenvolvimento do homem no meio disso tudo. Como afirma a antropóloga Carolina Parreiras: “no fim das contas, entender o sujeito, hoje, se tornou um desafio muito mais complexo.”

Por Vitor Ribeiro Jr.

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