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Ciência, manipulação genética e eugenia: Um risco distante?

Pesquisas colocam em questão a necessidade de discutir bioética.
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Cientistas, costumeiramente, são questionados: por que, apesar dos avanços científicos e tecnológicos, doenças como a Aids e o Câncer ainda vitimam milhões de pessoas no mundo? Em resposta, a ciência busca incessantemente reverter esse quadro e, nessa tarefa, os avanços relacionados à pesquisa do sistema CRISPR – do inglês Clustered Regularly Interspaced Short Palindromic Repeats (em português, em tradução livre “Repetições Palindrômicas Curtas Agrupadas e Regularmente Interespaçadas”), encontrado por pesquisadores pela primeira vez em 1987 no genoma das bactérias E.Coli, tenta contribuir no tratamento e prevenção dessas e outras doenças.

Cientistas, costumeiramente, são questionados: por que, apesar dos avanços científicos e tecnológicos, doenças como a Aids e o Câncer ainda vitimam milhões de pessoas no mundo? Em resposta, a ciência busca incessantemente reverter esse quadro e, nessa tarefa, os avanços relacionados à pesquisa do sistema CRISPR – do inglês Clustered Regularly Interspaced Short Palindromic Repeats (em português, em tradução livre “Repetições Palindrômicas Curtas Agrupadas e Regularmente Interespaçadas”), encontrado por pesquisadores pela primeira vez em 1987 no genoma das bactérias E.Coli, tenta contribuir no tratamento e prevenção dessas e outras doenças.

Desde 2011, estudos mostraram a possibilidade de o sistema ser utilizado como uma ferramenta da engenharia genética. Funciona basicamente assim: o CRISPR é o sistema de proteção das bactérias contra os vírus. Quando há alguma invasão, partes dele se pareiam ao DNA do agente estranho, gerando uma memória imunitária. Em contato com o vírus, essa memória é ativada e seu DNA é sequenciado, anulando assim sua ação. O sistema foi adaptado para identificar determinadas sequências do DNA desejado, possibilitando a edição genômica.

Ao mesmo tempo em que os avanços na biomedicina são consolidados, o CRISPR torna-se alvo de discussões no campo da bioética, já que o assunto envolve a possibilidade de alterações nas células do corpo humano. No Brasil, um dos grupos que pesquisam sobre o tema está no Instituto de Biotecnologia do campus Botucatu da Universidade Estadual Paulista (Unesp).

“Com alteração do genoma das células germinativas, muitos cientistas e o público geral temem por efeitos indesejáveis e não previstos que podem resultar do emprego da técnica, tornando esse receio o principal tópico relacionado à bioética”, explica o professor Diego Peres Alonso, líder do grupo da Unesp, pós-doutor em Ciências Biológicas. Tais células são as responsáveis pelo desenvolvimento embrionário e uma das principais preocupações em torno do CRISPR é a seleção de determinadas características humanas.

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“Existem vários órgãos reguladores envolvidos no debate sobre edição gênica, entre eles a Organização Mundial da Saúde, a Unesco e a Declaração Universal do Genoma Humano e dos Direitos Humanos. A maioria dos órgãos reguladores europeus atualmente baniu a edição gênica das células germinativas. De maneira semelhante, nos Estados Unidos, qualquer teste para edição de embriões humanos necessita de permissão do FDA [Food and Drugs Administration]”, complementa o professor, em entrevista exclusiva à Século 25. O órgão a que ele se refere é uma agência federal, integrante do que equivale ao Ministério da Saúde nos Estados Unidos.

A professora Lygia da Veiga Pereira é chefe do Departamento de Genética e Biologia da Universidade de São Paulo (USP) e docente no Laboratório Nacional de Células-Tronco Embrionárias (LaNCE). Ela explica que, no Brasil, o CRISPR é utilizado atualmente apenas para as pesquisas científicas em laboratório, sendo vedado às empresas. De acordo com ela, antes de ocorrer uma liberação desse uso, é necessária uma discussão ética sobre o tema.

“O conhecimento do genoma humano pode ocasionar a seleção de embriões e o CRISPR, em tese, poderia levar à criação de indivíduos com características genéticas desejáveis. Por isso, a cada avanço científico, toda uma discussão ética e legal sobre o que podemos e vamos fazer com as novas descobertas é necessária”, defende a professora.

“As novas tecnologias, como é o caso do sistema CRISPR, apenas facilitam a experimentação. Por exemplo, antes da descoberta desse sistema, existiam outras ferramentas que permitiam, com suas limitações, a edição de genomas. Portanto, a pesquisa científica nunca gira e nem deve girar em torno de uma ferramenta ou técnica nova. As perguntas e os questionamentos estão sendo constantemente feitos e respondidos, independentemente da metodologia empregada”, completa Alonso.

“O conhecimento do genoma humano pode ocasionar a seleção de embriões e o CRISPR, em tese, poderia levar à criação de indivíduos com características genéticas desejáveis.”

Eugenia

Pensando em logo prazo, poderia o sistema nos levar à eugenia? Esse processo, que foi um dos pilares sociais propostos pelo regime nazista de Adolf Hitler, consistia na formação de “seres perfeitos”, seguindo as características consideradas “aceitáveis” pelos nazistas. “A eugenia, propriamente dita, aconteceria com a edição gênica em células germinativas que formam o embrião humano. Até o momento, a técnica não foi e não pode ser usada para edição gênica em embriões humanos com a finalidade de se estabelecer uma gravidez. Antes de manipular células germinativas, é preciso considerar todas as implicações que isso pode trazer para as próximas gerações, no sentido de alteração ou manipulação do conjunto gênico que define a espécie humana”, explica Alonso.

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De acordo com a pesquisadora da Unesp, Isabela Gaseta Ferraz Paiva, a discussão no campo da bioética deve se centrar na garantia de que o sistema CRISPR deve ser utilizado apenas em terapia gênica, realizada em células que não originam gametas, diferentemente das germinativas. “Existe, ainda, o temor de que essa técnica possa ser usada, no futuro, para o chamado “design de bebês”, tanto na seleção de características físicas como na potencialização das capacidades físicas e cognitivas. Porém, esse não é e não deve nunca ser o propósito do sistema CRISPR. Caberá às agências reguladoras determinar os limites éticos do uso da tecnologia, definindo o que pode ser manipulado no DNA dos embriões”, explica.

Não é possível conceber hoje uma ciência dissociada de uma reflexão ética e de uma educação científica, que faça com que as pessoas pensem não só nos benefícios, mas estejam conscientes dos usos que fazem e que podem ser feitos do progresso científico. A ciência ainda é distante demais da maioria das pessoas”, pondera o pesquisador.

Além disso, a questão da educação para ciência e para a ética também deve incluir esses temas em suas discussões. É o que defende o professor Marko Nunes, do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas (IFCH) da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). “A ciência moderna, ao tocar em questões que impactam diretamente o ser humano, sempre exigiu uma abordagem filosófica, que colocasse questões para serem discutidas.

“Caberá às agências reguladoras determinar os limites éticos do uso da tecnologia, definindo o que pode ser manipulado no DNA dos embriões.”

A utilização do sistema em pesquisas laboratoriais tem proporcionado resultados positivos, principalmente, no que se refere ao combate de doenças. Em testes em camundongos, a remoção completa do HIV, com infecção parecida a que ocorre em humanos, e o reestabelecimento das funções esqueléticas e cardíacas perdidas já foram possíveis.

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“No nosso grupo de pesquisa e em outros da Unesp de Botucatu, estamos atualmente usando a técnica para inserir mutações em genes de metabolismo lipídico em linhagens celulares derivadas de macrófagos humanos e de camundongos. Acreditamos que essas mutações têm um papel significativo na infecção dessas células por parasitas que causam uma doença em humanos chamada leishmaniose visceral. Essa doença é considerada negligenciada e letal quando não tratada. Acreditamos que os avanços nessas pesquisas poderão gerar alternativas de tratamento”, explica Alonso. Ainda na universidade, um outro projeto de pesquisa trabalha maneiras de deixar o mosquito Aedes Aegypt menos suscetível aos vírus, que podem causar doenças como a Dengue e a Zika.

Entre prós e contras, o CRISPR se consolida com uma boa ferramenta de pesquisa. Além do combate às doenças, os professores ressaltam o alto grau de eficiência que o sistema apresenta, mas destacam que, como a técnica é relativamente nova, ainda existem riscos a serem trabalhados. “O principal benefício é a eficiência em todas as espécies no qual foi testado. Isso está comprovado. O problema é que há a possibilidade que ocorram modificações indesejáveis em outros locais do DNA, o que ainda precisa ser melhorado de modo a deixar o sistema mais específico”, pontua a professora.

“Talvez o aspecto mais preocupante seja um erro no mecanismo que são as chamadas edições off-target, em que ela altera não só a sequência desejada, mas também outras sequências similares em regiões distintas no genoma, podendo gerar alterações diferentes daquelas que são desejadas”, acrescenta Alonso. Ainda de acordo com ele, já existem ferramentas que minimizam esses efeitos indesejáveis. “Vale ressaltar ainda que a técnica se restringe a experimentos de edição de genes que possam causar uma doença ou condição grave”, conclui o professor.

Por Mário Gregório

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